quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Amigos para sempre (Luís Giffoni)



"O rapaz entrou no pré­­­dio em passadas de bêbado, tropeçou no pequeno degrau da portaria, quase caiu. Falava muito, a voz se arrastava, o corpo exalava cerveja e cachaça, os cabelos pareciam sujos de talco misturado com ketchup. A julgar pelos sinais, a farra tinha sido boa. Contou-me que voltava da comemoração do último dia de aula. Ele nem acreditava que não havia mais re­­posição nem provas, apenas a formatura o aguardava, após cinco anos de faculdade de engenharia. Já alugara o capelo e o modelito de formando com a capa de Batman, traje agora exigido na cerimônia. As fotografias oficiais estavam prontas. Os convites, distribuídos. Em sua camiseta, coberta de desenhos e bocas de batom, três palavras escritas com esferográfica me chamaram a atenção: Amigos para Sempre. Abaixo, uma dúzia de assinaturas.

O rapaz ainda não se deu conta, mas o término das aulas é a semente de uma grande saudade. Todo novembro e dezembro, época em que as despedidas e formaturas se concentram, novas turmas iniciam a rotina de trabalho, e cada pessoa toma seu rumo, com frequência longe de Belo Horizonte. Com o passar do tempo, talvez devido ao aumento das responsabilidades que a vida impõe, talvez pelo avanço da idade, o espírito irreverente do jovem se vai, e entram em campo a sisudez, a reserva, o ar de decano. Claro, há quem não se deixe dominar tão cedo pelo peso do compromisso, mas a maioria acaba cedendo. Então surge a nostalgia. O profissional se lembra dos anos de faculdade, recorda o espírito livre, leve e solto do último dia de aula, e a saudade chega. O tempo não poupa nem a mais elevada autoestima.

As reuniões de turma são um remédio eficaz, porém de curta duração, para essa saudade. Nem bem os colegas se reencontram, trocam abraços, tateiam assuntos, reconhecem-se, avançam. Dali a minutos, o antigo clima de camaradagem desponta, os anos se apagam, a conversa rola, a memória se instala, triunfante: baixam as lembranças, baixam os casos e causos, baixa a juventude que escapou em ritmo de Usain Bolt. Os amigos se ancoram no passado, em episódios que jamais mu­­­darão, em histórias que, ano após ano, serão repetidas à exaustão, sobretudo as mais engraçadas. Elas serão o referencial permanente, o graal revisitado. Livres da formalidade, alguns dos presentes ao encontro ensaiam um retorno no tempo: viram adolescentes. Os mais circunspectos, mais idosos do que merecem, os repreendem. Os outros riem. Aqui e ali, despontam os desgarrados: o economista que virou cineasta, o dentista que se tornou fazendeiro, o médico que explora hotel.

Imaginemos o formando de hoje, aquele da camiseta com as três palavras, numa reunião com os colegas de engenharia daqui a quarenta anos. Um deles, suponhamos que seu nome seja Eduardo, tomou a generosa iniciativa de reuni-los, procurando-os mundo afora. Muitos não se viam desde o porre da última comemoração. Transformaram-se em senhores calvos, os cabelos brancos dominam os poucos que ainda sobram, uma barriguinha decerto apareceu, os gestos tornaram-se mais comedidos. Alguns acreditam tanto no casamento que trazem a sexta esposa, ou esposo. No entanto, apesar das décadas decorridas, as diferenças logo desaparecem, o passado se instala, todos voltam a ser os jovens adultos que um dia se despediram escrevendo mensagens nas camisetas que já não existem, porém as três palavras permanecem para selar o convívio: Amigos para Sempre. Se o corpo não vence o tempo, há sentimentos que permanecem incólumes. A amizade é um deles."
Fonte: http://vejabh.abril.com.br/edicoes/amigos-sempre-722545.shtml

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Navio Negreiro - Castro Alves




Navio Negreiro
                       (Castro Alves)

"(...) Era um sonho dantesco... o tombadilho  
Que das luzernas avermelha o brilho. 
Em sangue a se banhar. 
Tinir de ferros... estalar de açoite...  
Legiões de homens negros como a noite, 
Horrendos a dançar... 

Negras mulheres, suspendendo às tetas  
Magras crianças, cujas bocas pretas  
Rega o sangue das mães:  
Outras moças, mas nuas e espantadas,  
No turbilhão de espectros arrastadas, 
Em ânsia e mágoa vãs! 

E ri-se a orquestra irônica, estridente... 
E da ronda fantástica a serpente  
Faz doudas espirais ... 
Se o velho arqueja, se no chão resvala,  
Ouvem-se gritos... o chicote estala. 
E voam mais e mais... 

Presa nos elos de uma só cadeia,  
A multidão faminta cambaleia, 
E chora e dança ali! 
Um de raiva delira, outro enlouquece,  
Outro, que martírios embrutece, 
Cantando, geme e ri! 

No entanto o capitão manda a manobra, 
E após fitando o céu que se desdobra, 
Tão puro sobre o mar, 
Diz do fumo entre os densos nevoeiros: 
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros! 
Fazei-os mais dançar!..." 

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . . 
E da ronda fantástica a serpente 
Faz doudas espirais... 
Qual um sonho dantesco as sombras voam!... 
Gritos, ais, maldições, preces ressoam! 
          E ri-se Satanás!...  (...)"


 
 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Isto - Fernando Pessoa - Contribuição da Pâmela Machado..




 

ISTO

Dizem que finjo ou minto 
Tudo que escrevo. Não. 
Eu simplesmente sinto 
Com a imaginação. 
Não uso o coração. 

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda, 
É como que um terraço 
Sobre outra coisa ainda. 
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio 
Do que não está ao pé, 
Livre do meu enleio, 
Sério do que não é. 
Sentir? Sinta quem lê! 

(Fernando Pessoa)

domingo, 28 de outubro de 2012

Hifen com prefixos


"(...) O H é majestoso. Não se mistura. O prefixo, seguido da letra muda, vem isolado:
anti-higiênico,
super-herói,
mini-história,
sub-humanidade.

Os iguais se rejeitam. Quando duas letras iguais se encontram, provocam curto-circuito. O tracinho evita tragédias:
micro-ondas,
super-região,
contra-ataque,
auto-orientação.

Os diferentes se atraem. Duas letras diferentes funcionam como imã. Colam-se num piscar de olhos:
autoescola,
supermercado,
contrarregra,
macrossistema,
minissaia,
automotivação."

SQUARISI. Dad, Jornal Estado de Minas. Out. 2012.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Júlio Verne - A Volta ao Mundo em 80 Dias


Le Tour du Monde en 80 Jours
 
"(...) Ao meio-dia o guia deu o sinal de partida. O terreno tomou bem depressa um aspecto selvático. Às grandes florestas sucederam-se os matagais de tamarindos e de palmeiras anãs, em seguida planícies extensas e áridas, eriçadas de arbustos enfezados e cobertas em certos sítios de grandes pedaços de sienitos. Toda esta parte do alto Bundelkund, pouco frequentada dos viajantes, é habitada por uma população fanática, endurecida nas práticas mais terríveis da religião indiana. O domínio dos Ingleses não pôde estabelecer-se regularmente num território submetido à influência dos rajás, os quais seria difícil alcançar nas suas posições inacessíveis dos Vindhyas.
   Por várias vezes os viajantes avistaram alguns bandos de índios selvagens e ferozes, que faziam um gesto de cólera ao verem passar o veloz quadrúpede. Entretanto o parse evitava-os o mais possível, considerando-os como criaturas cujo encontro seria funesto. No decurso deste dia foram vistos poucos animais, apenas alguns macacos, que fugiam... (...)"

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A Sombra do Vento


"Uma tarde de chuva na encosta leste do cemitério de Montijuic, olhando o mar em meio a um bosque de mausoléus impossíveis, um bosque de cruzes e lápides talhadas com rostos de caveiras e crianças sem lábios nem olhar, que fedia a morte, as silhuetas de uma vintena de adultos dos quais eu só conseguia me lembrar das roupas pretas, empapadas de chuva, e a mão do meu pai segurando a minha com força excessiva, como se assim ele quisesse silenciar suas lágrimas, enquanto as palavras ocas de um sacerdote caíam naquela fossa de mármore para dentro da qual três coveiros sem rosto empurravam um caixão cinzento onde o aguaceiro deslizava como cera fundida e onde eu acreditava ouvir a voz da minha mãe, chamando-me, suplicando para eu libertá-la daquela prisão de pedra e de escuridão, enquanto eu só conseguia tremer e murmurar sem voz para meu pai não apertar tanto a minha mão, pois estava me machucando, e aquele cheiro de terra fresca, terra de cinza e de chuva, devorava tudo, cheiro de morte e de vazio." (...)

ZÁFON, Carlos Ruiz. A Sombra do Vento. Tradução de Marcia Ribas. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2007, p. 251.

domingo, 19 de agosto de 2012

Amor é síntese - Mário Quintana


AMOR É SÍNTESE

Por favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu...

Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.

Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor.
Mário Quintana 

"Eis que o amor pode ser síntese, mas nunca sintético" (Eduardo Leandro)