sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Isto - Fernando Pessoa - Contribuição da Pâmela Machado..




 

ISTO

Dizem que finjo ou minto 
Tudo que escrevo. Não. 
Eu simplesmente sinto 
Com a imaginação. 
Não uso o coração. 

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda, 
É como que um terraço 
Sobre outra coisa ainda. 
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio 
Do que não está ao pé, 
Livre do meu enleio, 
Sério do que não é. 
Sentir? Sinta quem lê! 

(Fernando Pessoa)

domingo, 28 de outubro de 2012

Hifen com prefixos


"(...) O H é majestoso. Não se mistura. O prefixo, seguido da letra muda, vem isolado:
anti-higiênico,
super-herói,
mini-história,
sub-humanidade.

Os iguais se rejeitam. Quando duas letras iguais se encontram, provocam curto-circuito. O tracinho evita tragédias:
micro-ondas,
super-região,
contra-ataque,
auto-orientação.

Os diferentes se atraem. Duas letras diferentes funcionam como imã. Colam-se num piscar de olhos:
autoescola,
supermercado,
contrarregra,
macrossistema,
minissaia,
automotivação."

SQUARISI. Dad, Jornal Estado de Minas. Out. 2012.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Júlio Verne - A Volta ao Mundo em 80 Dias


Le Tour du Monde en 80 Jours
 
"(...) Ao meio-dia o guia deu o sinal de partida. O terreno tomou bem depressa um aspecto selvático. Às grandes florestas sucederam-se os matagais de tamarindos e de palmeiras anãs, em seguida planícies extensas e áridas, eriçadas de arbustos enfezados e cobertas em certos sítios de grandes pedaços de sienitos. Toda esta parte do alto Bundelkund, pouco frequentada dos viajantes, é habitada por uma população fanática, endurecida nas práticas mais terríveis da religião indiana. O domínio dos Ingleses não pôde estabelecer-se regularmente num território submetido à influência dos rajás, os quais seria difícil alcançar nas suas posições inacessíveis dos Vindhyas.
   Por várias vezes os viajantes avistaram alguns bandos de índios selvagens e ferozes, que faziam um gesto de cólera ao verem passar o veloz quadrúpede. Entretanto o parse evitava-os o mais possível, considerando-os como criaturas cujo encontro seria funesto. No decurso deste dia foram vistos poucos animais, apenas alguns macacos, que fugiam... (...)"

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A Sombra do Vento


"Uma tarde de chuva na encosta leste do cemitério de Montijuic, olhando o mar em meio a um bosque de mausoléus impossíveis, um bosque de cruzes e lápides talhadas com rostos de caveiras e crianças sem lábios nem olhar, que fedia a morte, as silhuetas de uma vintena de adultos dos quais eu só conseguia me lembrar das roupas pretas, empapadas de chuva, e a mão do meu pai segurando a minha com força excessiva, como se assim ele quisesse silenciar suas lágrimas, enquanto as palavras ocas de um sacerdote caíam naquela fossa de mármore para dentro da qual três coveiros sem rosto empurravam um caixão cinzento onde o aguaceiro deslizava como cera fundida e onde eu acreditava ouvir a voz da minha mãe, chamando-me, suplicando para eu libertá-la daquela prisão de pedra e de escuridão, enquanto eu só conseguia tremer e murmurar sem voz para meu pai não apertar tanto a minha mão, pois estava me machucando, e aquele cheiro de terra fresca, terra de cinza e de chuva, devorava tudo, cheiro de morte e de vazio." (...)

ZÁFON, Carlos Ruiz. A Sombra do Vento. Tradução de Marcia Ribas. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2007, p. 251.

domingo, 19 de agosto de 2012

Amor é síntese - Mário Quintana


AMOR É SÍNTESE

Por favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu...

Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.

Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor.
Mário Quintana 

"Eis que o amor pode ser síntese, mas nunca sintético" (Eduardo Leandro)

domingo, 29 de julho de 2012

Pelas Mãos de Fídias - Jogos Olímpicos

O sonho de uma sombra, eis o homem” (Píndaro)

Estou chegando a Olímpia – ano de 776, a.C.. Venho de Atenas, de onde saí, há cerca de duas semanas, trazido por um sonho. Só Deus sabe quanto penei ao longo da travessia. Trago os pés cobertos de bolhas d`água. Caminhei horrores pelo deserto de Arcadia, árduo chão de pedras repisadas. Hoje de manhã, quase ao final da viagem, ao tentar colher uma tâmaras, escapei de uma boa: fui atacado por um enxame de abelhas. Mal tive tempo de pular dentro d`água. Mergulhei no rio Alfeu pra salvar minha pele, minha vida.
Olímpia está tomada de visitantes. É gente que vem dos mais distantes lugares da Grécia. São artistas, charlatães, camponeses, mágicos, pescadores, filósofos. Todos, como eu, vieram para os Jogos Olímpicos que começam hoje. Melhor dizendo, recomeçam hoje. Os Jogos estavam suspensos há centenas de anos, segundo me conta um pastor de ovelhas chamado Fídias que, diga-se de passagem, não tem qualquer parentesco com o escultor Fídias, o qual, aliás, ainda nem sequer nasceu. Coisa engraçada: o tempo por aqui, conta-se pelo avesso. É o caso do próprio e renomado escultor Fídias que nasceu no ano de 490 a.C. e morreu no ano de 432. – Os gregos de outrora morriam antes de nascer…
Os Jogos ressurgem neste belo dia de sol e caem justamente na primeira lua cheia seguinte ao solstício do verão. Respeita-se, assim, o ritual dos Jogos, criados pelo rei Penélope para homenagear os camponeses, durante a colheita das uvas.
O dia está nascendo em Olímpia. Já começa a chegar muita gente ao estádio. À primeira vista, a pequena multidão lembra um bloco fantasiado de grego no carnaval carioca. Vestem todos saiotes e túnica, com uma discreta tiara de pano cingindo a cabeça. Não vejo uma só mulher na torcida. Fídias me explica: é proibido! Mulher não pode assistir aos Jogos. A única que tentou driblar a lei foi a mãe de um atleta. Ela era treinadora do próprio filho e entrou na pista disfarçada de homem. Descobriram e foi o diabo! A pobrezinha só não morreu atirada num precipício porque era filha de um herói de guerra. Mas, desde então, para evitar novas astúcias femininas, o atleta é obrigado a competir nuzinho em pelo. Na pista, seja atleta, treinador ou mesmo juiz, a ordem é todo mundo nu.
A idéia de realizar os Jogos Olímpicos da Antiguidade de quatro em quatro anos é rebento de muitos pais. Um deles teria sido Hércules. Corre em Atenas que, um dia, Augias, rei de Élida, confiou ao gigante Hércules a tarefa de limpar os mal-cheirosos currais da cidade. E prometeu recompensá-lo com um saco de ouro. Hércules, então, meteu mãos à obra: escancarou as porteiras dos estábulos, soltou os três mil bois que lá viviam porcamente e, com a força gigantesca que os deuses nunca lhe negaram, desviou o leito do rio Alfeu, fazendo que a correnteza arrastasse em poucas horas toda a sujeira dos estábulos. Foi a primeira obra realmente hercúlea de uam criatura humana.
Na hora de honrar a palavra, o rei Augias roeu a corda. Disse que não ficara nada satisfeito com o resultado do trabalho. Hércules, com toda razão, virou uma fera e, sem mais aquela, despachou o monarca, cravando-lhe no peito uma lança mortal. Por sinal, a mesma lança com a qual matara, dias antes, o leão de Nemeas. No dia seguinte, Hércules celebraria a façanha, disputando com os quatro irmãos, uma corrida de 600 pés de distância.
Hoje, não haverá competição. O programa limita-se à abertura dos Jogos, com o juramento dos juízes e dos atletas. Amanhã, a disputa começa com o Pentatlo. Meu amigo Fídias, um verdadeiro apóstolo dessa religião chamada olimpismo, sabe-se de cór o regulamento dos Jogos. São 14 artigos, o primeiro dos quais reza que escravos e estrangeiros não podem competir; o quinto proíbe mulher de assistir aos Jogos; o sétimo diz que nenhum atleta pode matar seu adversário; o décimo terceiro avisa que qualquer participante tem direito de recorrer ao Senado, em Atenas, contra a decisão dos juízes.
São oito da noite. Estou exausto, Fídias também. A cerimônia de inauguração dos Jogos Olímpicos foi bem o que imaginávamos. Um espetáculo solene e emocionante que terminou com um belo entardecer: de um lado, o sol deitando no céu uma colossal vermelhidão; do outro lado, a lua chegando, olimpicamente.

(Armando Nogueira)

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Dia do Amigo - Vinícius de Moraes e Machado de Assis.

SONETO DO AMIGO


Enfim, depois de tanto erro passado 
Tantas retaliações, tanto perigo 
Eis que ressurge noutro o velho amigo 
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado 
Com olhos que contêm o olhar antigo 
Sempre comigo um pouco atribulado 
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano 
Sabendo se mover e comover 
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...


(Vinícius de Moares)




BONS AMIGOS


Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!


(Machado de Assis)