"Era uma vez... numa terra muito distante... uma princesa linda, independente e cheia de auto-estima.
Ela se deparou com uma rã enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo era relaxante e ecológico.
Então, a rã pulou para o seu colo e disse: linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito.
Uma bruxa má lançou-me um encanto e transformei-me nesta rã asquerosa.
Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir lar feliz no teu castelo.
A tua mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavar as minha roupas, criar os nossos filhos e seríamos felizes para sempre...
Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã sautée, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria, pensando consigo mesma:
- Eu, hein?... nem morta!!!!"
Luis Fernando Veríssimo
domingo, 8 de março de 2015
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
A República Federativa do Facebook - por Aurélio Munhoz
"O alto grau de
octanagem dos debates confirmam a relevância dos três temas para a sociedade:
violência, sexualidade e escândalos públicos.
Incendiários debates marcam a vida
agitada no universo virtual do Facebook há algumas semanas. Entre tantos, o
antagonismo das posições dos usuários sobre a escatologia verbal de Rachel
Sheherazade a respeito da agressão da comunidade a um adolescente nas ruas do
Rio de Janeiro, o circo de horrores exibido pelas empreiteiras/ clubes de
futebol na execução das obras da Copa do Mundo de 2014, bem como o beijo gay
que marcou a última novela da principal emissora de TV do País.
O alto grau
de octanagem destes debates e sua amplitude confirmam a relevância dos três
temas para a sociedade (violência, sexualidade e escândalos na esfera pública),
mas vão muito além disso. Comprovam o inacreditável sucesso da rede social que,
com apenas dez anos de existência, é dona de um portfólio formado por um bilhão
de almas no planeta e mais de 80 milhões no Brasil. O Facebook é, com
toda justiça, a jóia da coroa do mundo virtual.
É com estas
credenciais que o império construído por Mark Zuckerberg se consolida como
uma espécie de versão virtual - elevada, porém, à milionésima potência - do
Speakers' Corner, o despojado pedaço de chão localizado em uma das muitas
curvas do famoso Hyde Park, em Londres.
Lá, postados
em banquetas trêmulas de madeira ou em escadinhas de metal, malucos de todos os
matizes falam (quase) tudo o que querem a uma platéia 99% interessada em ouvir
suas chorumelas, mas apenas 1% disposta a empunhar suas bandeiras.
No Speakers'
Corner planetário em que se constitui o FB (Facebook), o limite é o infinito.
Talvez seja justamente esta capacidade de garantir visibilidade em escala
inimaginável a cidadãos ignorados pelo mass media que, somada à sanha
verborrágica da Nação, explique seu sucesso no Brasil e ajude a entender porque
os usuários postam em suas páginas uma paleta de propósitos com tons tão
variados: fofocas, desabafos, brincadeiras, confissões, ofensas, desejos,
cretinices, medos, frustrações, provocações, cantadas, sacanagens, mentiras e,
enfim, verdades e grandezas profundas da condição humana.
Neste rol
infindável de motivações, o Facebook tanto pode ser um divã de psicanalista
virtual quanto um diário de bordo que os usuários fazem questão de compartilhar
com seus iguais (e muitas vezes também com os diferentes) na tentativa de
perpetuar suas conquistas, expor convicções, amenizar as dores provocadas pelas
chagas da alma que a vida lhes impõe ou apenas exercer uma pretensa vocação
para a chacota.
Pois bem. Este artigo sugere que exatamente porque a linguagem escrita é
a forma de expressão maior do FB - e que fazemos uso dela com tamanha e tão
difusa profusão - a rede social criada por Zuckerberg ganha status da tradução
contemporânea mais fidedigna da Nação que somos. Ou que queremos ser.
Mais curioso
ainda é que os perfis de muitos usuários brasileiros do Facebook tornam
atualíssima a principal contribuição teórica do avô dos historiadores
brasileiros, Sérgio Buarque de Hollanda. No clássico dos clássicos
"Raízes do Brasil", obra que completa 74 anos em 2014, Sérgio
discorre sobre os brasileiros e foca sua análise em uma característica
intrínseca ao seu modo de ser: a cordialidade.
Para o
autor, porém, cordial nada tem a ver com fidalguia, mas com a palavra
latina cor, cordis; coração, em bom Português. O que significa que,
para Sérgio, o tal do homem cordial não é exatamente um sujeito gentil, mas uma
pessoa movida a emoções, não aos ditames da razão. A gangorra dos sentimentos,
em suma, tão característica dos passionais brasileiros.
Na extensão
desta linha de raciocínio, antecipando o que o antropólogo Roberto da Matta
sentenciaria quase 50 anos depois em “a Casa e a Rua”, o autor considera ainda
que o homem cordial mistura público e privado no mesmo tacho e não é muito
afeto a esta tantas vezes desprezada civilidade nacional.
Dito isso e
considerando sua teoria como válida, impossível não pensar que o perfil de boa
parte do público que navega pelo Facebook - até pela abordagem dos temas
citados - nada mais é que a reprodução destes tantos aspectos difusos dos
brasileiros, dissecados pelo mestre Sérgio Buarque de Hollanda.
É assim, por
exemplo, quando brasileiros de todas as regiões e classes (comprovando que a
passionalidade não tem divisas, nem faz distinções de saldos bancários)
substituem o cérebro pelo fígado no trato de questões sociais complexas, como
os temas citados: violência, sexualidade e corrupção. E, ao fazê-lo, cometem
frequentemente o equívoco de tomar suas opiniões como expressões da verdade e,
ainda, de ignorar, satanizar ou ridicularizar as posições divergentes.
Isto ocorre
porque, inaptos para reunir todos os elementos da vida social capazes de lhes
propiciar uma análise realista e objetiva do mundo, rendem-se às emoções e
bebem de fontes contaminadas pelo senso comum mais raso possível (não raro os
“hoaxes”, boatos de internet reproduzidos à exaustão) e que, por isso mesmo,
são incapazes de traduzir uma realidade per si profundamente densa. É
um achismo temperado com uma vocação irresistível à intolerância.
Deste
cenário ao equívoco da contradição é um pulo. E, para chegar a esta conclusão,
basta um exemplo: a abordagem de muitos usuários do Facebook sobre a
criminalidade. Muitas das pessoas que condenam a violência nas grandes cidades
e a ação muitas vezes truculenta da polícia são as mesmas que defendem seu uso
amplo contra todos os que destoam das regras sociais e das leis penais,
inclusive com o uso da Pena de Talião e da pena de morte como formas mais
eficazes de combate à criminalidade.
Porém,
note-se: defendem o uso da violência não pelas próprias mãos, mas pelas dos
outros, já que pouquíssimos são os que se dispõem a fazer o trabalho sujo de,
por exemplo, trucidar marginais em praça pública. Menos ainda quando são
desafiados a fazê-lo, por exemplo, caso o marginal em questão seja um filho ou
amigo. Ou seja: a violência que este grupo defende é apenas contra o outro;
contra a própria família e os amigos, nunca.
Não falta
quem guarde um desapreço crônico ao esforço de praticar os fundamentos que a
vida em sociedade exige. É que dá muito trabalho fazer a lição de casa: pensar,
debater, reconhecer erros. É duro mudar condutas. Muito mais fácil e divertido
é condenar, ignorar, satirizar e hostilizar os que pensam de modo diferente e
que ao pertencem ao nosso grupo de interesse.
É o que
temos na República Federativa do Brasil. E, por extensão, no nosso mundo
virtual paralelo, a República Federativa do Facebook. O segundo não exatamente
feito sob medida para o primeiro. Mas com a sua cara. A mesma que precisamos
reinventar (começando por nós mesmos) para sermos a Nação socialmente
desenvolvida e igualitária que, um dia, queremos - e precisamos - ser."
terça-feira, 29 de outubro de 2013
Hoje, dia internacional do Livro.
"A História do LIVRO
O Livro, do jeito que nós conhecemos, impresso em papel, apareceu no século XV, quando Johann Gutenberg inventou a prensa de tipos móveis.
Essa invenção foi uma verdadeira revolução.
Pelo fato de ser muito mais barato, o livro impresso pôde alcançar multíssimo mais, gente, em todas as partes do mundo. O livro popularizado modificou a educação, democratizou a informação e o conhecimento; o livro acabou com a Idade Média.
Mas antes de ter a forma que tem hoje, o livro já existia. Na verdade, desde que o homem é homem, quer dizer, há mais ou menos um milhão de anos, ele vem deixando marcas de sua passagem pelo mundo. Desde os tempos da caverna, quando homens primitivos desenhavam e gravavam nas paredes de pedra imagens maravilhosas de bois, cavalos, bisões. Essas imagens nos contam que o homem, na época em que pintou essas figuras, já tinha senso artístico, noção de proporções e capacidade de cumprir um planejamento.
Mas a história do homem só pode ser contada a partir da invenção da escrita, quer dizer, a partir de cinco mil anos atrás.
De fato, a partir da invenção da escrita é que começaram a aparecer os primeiros documentos escritos e os primeiros livros.
Naturalmente a forma que os livros assumiram dependia dos materiais e dos instrumentos que cada povo tinha à sua disposição. E eram livros muito diferentes dos atuais.
Quando se escrevia sobre barro, madeira, metal, ossos e bambu, materiais rígidos, que não podiam ser dobrados, os livros eram feitos de lâminas ou placas separadas.
Os materiais flexíveis, como tecido, papiro, couro, entrecasca de árvores e finalmente papel, permitiam outras soluções, como as dobras e os rolos."
Disponível em: http://books.google.com.br/books?id=zZjE1YE2YGwC&printsec=frontcover&dq=historia+do+livro&hl=pt-BR&sa=X&ei=RKNvUqKEJozIkAe3w4FY&ved=0CC8Q6AEwAA#v=onepage&q=historia%20do%20livro&f=false
Será que a história do livro está chegando ao fim? Ou será apenas mais uma mutação, saindo do papel e se transformando em bits na tela dos computadores, smartphones e tablets? Será que há futuro sem a leitura? Enquanto isso, parabéns aos livros, os escritores, e claro, aos leitores! Nada melhor pra comemorar do que um bom livro! (Eduardo Leandro).
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Príncipe das Trevas
Black Sabbath
Cedo ou tarde, todos que buscam o verdadeiro caminho da evolução terão que enfrentar e assumir sua própria escuridão.
segunda-feira, 3 de junho de 2013
Esboços Cotidianos: CODA - Steve Jobs
Esboços Cotidianos: CODA - Steve Jobs: "Numa tarde ensolarada, quando não se sentia bem, Jobs sentou-se no jardim atrás da casa e refletiu sobre a morte. Falou de suas ex...
CODA - Steve Jobs
"Numa tarde ensolarada, quando não se sentia bem, Jobs sentou-se no jardim atrás da casa e refletiu sobre a morte. Falou de suas experiências na Índia quase quarenta anos antes, de seus estudos sobre o budismo e de suas opiniões sobre reencarnação e transcendência espiritual. "Sobre acreditar em Deus, sou mais ou menos meio a meio", disse. "Durante a maior parte de minha vida achei que deve haver algo mais na nossa existência do que aquilo que vemos."
Ele admitiu que, diante da morte, pode estar superestimando as chances, pelo desejo de acreditar numa outra vida. "Gosto de pensar que alguma coisa sobrevive quando morremos", disse. "É estranho pensar que a gente acumula tanta experiência, talvez um pouco de sabedoria, e tudo simplesmente desaparece. Por isso quer realmente acreditar que alguma coisa sobrevive, que talvez nossa consciência perdure."
Ficou em silêncio por um um bom tempo. "Mas, por outro lado, talvez seja apenas como um botão de liga-desliga", prosseguiu. "Clique! E a gente já era."
Fez outra pausa e sorriu de leve. "Talvez seja por isso que eu jamais gostei de colocar botões de liga-desliga nos aparelhos da Apple.""
Ele admitiu que, diante da morte, pode estar superestimando as chances, pelo desejo de acreditar numa outra vida. "Gosto de pensar que alguma coisa sobrevive quando morremos", disse. "É estranho pensar que a gente acumula tanta experiência, talvez um pouco de sabedoria, e tudo simplesmente desaparece. Por isso quer realmente acreditar que alguma coisa sobrevive, que talvez nossa consciência perdure."
Ficou em silêncio por um um bom tempo. "Mas, por outro lado, talvez seja apenas como um botão de liga-desliga", prosseguiu. "Clique! E a gente já era."
Fez outra pausa e sorriu de leve. "Talvez seja por isso que eu jamais gostei de colocar botões de liga-desliga nos aparelhos da Apple.""
quarta-feira, 8 de maio de 2013
O marxista saudoso da cultura burguesa
O marxista saudoso da
cultura burguesa
Quando
o historiador britânico Eric Hobsbawm morreu de pneumonia, em primeiro de
outubro de 2012, aos 95 anos, consagrado e cercado por mulher e três filhos,
não demonstrava sossego nem resignação. Ainda fazia planos de publicar novos
livros. Ocupava-se, entre outros assuntos, do futuro da arte e da cultura no
século XXI. Não se conformava com a decadência que as artes plásticas e a
literatura experimentaram na era do consumo de massa e se dizia perplexo com a
consolidação da internet. Ainda assim, esforçava-se para entender o que
acontecera com tudo que aprendera a amar: o jazz, a ópera, os festivais
literários, o futebol e o ideal de revolução preconizado pelos pensadores
marxistas, seus mestres.
Foi
misturando pessimismo crítico e esperança humanista que ele concluiu aquela que
viria a ser sua obra póstuma, Tempos
fraturados – Cultura e sociedade no século XX, lançada em março no Reino
Unido e nesta semana no Brasil. A coletânea de 22 textos, entre ensaios,
conferências e artigos escritos entre 1964 e 2012, trata da relação entre arte
e política no século XX e seus efeitos sobre o novo milênio. (...)
Hobsbawm
foi, para emprestar termos que deram título a seus livros, um dos raros
representantes da “era dos impérios” a ter atravessado o “breve século XX” e
testemunhado o triunfo avassalador da sociedade da informação. Ele herdou uma
visão de mundo – o iluminismo de esquerda – que o século XX praticamente
destruiu. Isso explica, em larga medida, seu mau humor e seu desencanto dos
últimos anos. Eles se manifestavam, sob o verniz da educação, nas conversas com
colegas e jornalistas. No fim da carreira, ganhou fama como o homem que
encurtou o século XX. Isso, antes mesmo de o século ter acabado
oficialmente. (...) Esse século
“catastrófico” – prensado entre o peso do passado e a sombra do futuro – durou para
Hobsbawm apenas 75 anos. (...)
Mesmo
angustiado com o futuro de um tipo de cultura que o formara, o revolucionário
saudoso, marxista, aristocrático, profeta e ao mesmo tempo celebridade pop
despediu-se torcendo pelas mudanças da história – que, ele sabia, jamais
deixaram de ocorrer, sempre em direções inesperadas.
GIRON, Luís Antônio. Revista Época, n.780, mai/2013
terça-feira, 30 de abril de 2013
Livro de Receitas
Livro de receitas
Ingredientes:
·
1 xícara de paixão,
·
1 pitada de pontualidade,
·
4 colheres de sopa de força de vontade,
·
2 colheres de chá de atenção,
·
1 xícara de oportunidade,
·
2 latas de sabedoria,
·
2 ou 3 porções de sonhos, a gosto.
Modo de preparo:
Todas as manhãs
destes últimos meses, faça chuva ou sol, em dias frios ou quentes, agarramos a
xícara de “oportunidade” que nos foi dada, e usamos para vencer a preguiça,
lembrada num poema de Pablo Neruda. Todos estes dias fomos ao encontro da
“sabedoria”.
“Sabedoria” esta, que está presente no ensinar, no aprender, no ouvir,
no falar, no organizar, no alimentar, no sorrir e no bom dia. Com mais uma
pitada de “pontualidade”, batida numa frequência suave, em neve, não deixou o
nosso objetivo escapar entre os dedos.
Com a “força de vontade”, aliada à “paixão” percebida nas pessoas, nos
outros alunos e funcionários; ficou bem mais fácil ter “atenção” e foco nos
ensinamentos, como também untar invariavelmente a nossa satisfação em fazer
parte de uma classe, de novo, após alguns anos.
Como disse Antoine Lavoisier: “Na natureza nada se
cria, nada se perde, tudo se transforma.” Assim, não criamos nada, já chegamos
prontos, só nos transformamos: de indivíduos amedrontados em um grupo
homogêneo, de simples colegas em amigos afáveis, de alunos sedentos de
informações em pessoas dispostas a ensinar e multiplicar esta nova experiência.
E nem perdemos nada, só ganhamos. Aprendemos com amigos a confeitar o céu e
sentir a vida mais doce, ou o doce da vida, como queiram!
E com uma pitada do respeito que fomos tratados e uma colher de
amizade para tirar o gosto amargo dos dias turbulentos, conseguimos superar
barreiras e dificuldades.
Acrescente tudo isto em um centro de qualificação, melhor, no Centro
de Qualificação do Providência, desculpe a redundância, é uma escolha
providencial, determinante e na medida certa para a comunidade.
Leve ao fogo do conhecimento, em banho-maria, por 180 horas, adicione
uma cobertura de sonhos e sirva em porções abundantes.
Nós nos servimos. E você? Sirva-se!!!
Registramos aqui, nestas palavras tortas e sem rima, o nosso muito
obrigado.
Turma do Curso de Informática Básica, de Abril/2013.
Nota: O
formato do texto é uma forma de agradecimento à turma de confeitaria pelas
delícias oferecidas.
domingo, 3 de março de 2013
Segue a dica: Fora, Renan!
"Quem diria! O povo, antes tão cordato, mudou. Convocado pela mídias sociais, foi às ruas. Cartazes, outdoors e passeatas tomaram contam de cidades de Norte a Sul do país. O recado era um só: Fora, Renan.
Todos protestam contra a eleição de Renan Calheiros para presidente do Senado. A razão: envolvido em escândalo, ele renunciou ao mesmo cargo há quatro anos. Agora volta? Qual é, Caribé? Vão longe os tempos em que os brasileiros pareciam ter memória fraca.
Mas nem todos recuperaram o tempo perdido. Muitos se esqueceram de lição que aprenderam lá na escola primária. Ela manda separar o vocativo. O termo mais elitista da oração não se mistura aos demais nem a pedido do papa. O ser a quem nos dirigimos detesta confusão. Pra evitar tropeços, dá uma dica precisa. Na dúvida, anteceda o termo de ó. Se o monossílabo couber, não duvide. Trata-se de vocativo: Fora, (ó) Renan."
(Dad Squarisi - jornal Estado de Minas - 03/03/2013)
É uma absurdo a postura dos políticos. Estes possuem o "rabo preso", devem favores, ficam aguardando algum 10% cair no bolso, almejando sempre um cargo de confiança, uma presidência de estatal, um empreguinho para o parente. Temos que acabar com isto. Nós, o povo, trabalhamos muito, nos trinta dias, pra receber o nosso salário e pagar impostos ao governo. Ao declarar ao leão, lembre-se do seu voto!!!
Todos protestam contra a eleição de Renan Calheiros para presidente do Senado. A razão: envolvido em escândalo, ele renunciou ao mesmo cargo há quatro anos. Agora volta? Qual é, Caribé? Vão longe os tempos em que os brasileiros pareciam ter memória fraca.Mas nem todos recuperaram o tempo perdido. Muitos se esqueceram de lição que aprenderam lá na escola primária. Ela manda separar o vocativo. O termo mais elitista da oração não se mistura aos demais nem a pedido do papa. O ser a quem nos dirigimos detesta confusão. Pra evitar tropeços, dá uma dica precisa. Na dúvida, anteceda o termo de ó. Se o monossílabo couber, não duvide. Trata-se de vocativo: Fora, (ó) Renan."
(Dad Squarisi - jornal Estado de Minas - 03/03/2013)
É uma absurdo a postura dos políticos. Estes possuem o "rabo preso", devem favores, ficam aguardando algum 10% cair no bolso, almejando sempre um cargo de confiança, uma presidência de estatal, um empreguinho para o parente. Temos que acabar com isto. Nós, o povo, trabalhamos muito, nos trinta dias, pra receber o nosso salário e pagar impostos ao governo. Ao declarar ao leão, lembre-se do seu voto!!!
Bem-vindos, senhores da guerra.
"Sabia? Março é irmãozinho de Márcio, Márcia e marcial. São todos filhos de Marte. Forte, valente e mau, o deus da guerra está sempre preparado para a luta. Dia e noite, usa armadura e capacete. Na mão esquerda, carrega um escudo. Na direita, uma espada. O danado aparece de surpresa durante as batalhas, num carro puxado por quatro cavalos. Fica no meio dos soldados e ataca com vontade. Que medão!
Em homenagem a Marte, o planeta Marte se chama Marte. O homem que lá nasce é marciano. O terceiro mês do ano recebe o nome de março. Judô, caratê e aiquidô são lutas marciais. Por quê? Há Muiiiitos anos, os guerreiros chineses e japoneses não tinham armas. Para atacar ou defender, usavam o próprio corpo. Aprendiam então, as lutas das guerras. Fizeram escola. Até hoje, crianças e adultos praticam os esportes que disciplinam o corpo e a mente. Nem se lembram que, antigamente, salvavam vidas."
(Dad Squarisi - Jornal Estado de Minas - 03/0/3/2013)
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Joelmir Beting - Despedida do filho, Mauro. (com aúdio)
"Nunca falei com meu pai a respeito depois que o Palmeiras foi rebaixado. Sei que ele soube. Ou imaginou. Só sei que no primeiro domingo depois da queda para a Segunda pela segunda vez, seu Joelmir teve um derrame antes de ver a primeira partida depois do rebaixamento. Ele passou pela tomografia logo pela manhã. Em minutos o médico (corintianíssimo) disse que outro gigante não conseguiria se reerguer mais”.
O melhor pai que um jornalista pode ser. O melhor jornalista que um filho pode ter como pai.
Preciso dizer algo mais para o melhor Babbo do mundo que virou o melhor Nonno do Universo?
Preciso. Mas não sei. Normalmente ele sabia tudo. Quando não sabia, inventava com a mesma categoria com que falava sobre o que sabia.
Todo pai é assim para o filho. Mas um filho de jornalista que também é jornalista fica ainda mais órfão.
Nunca vi meu pai como um super-herói. Apenas como um humano super. Só que jamais imaginei que ele pudesse ficar doente e fraco de carne. Nunca admiti que nós pudéssemos perder quem só nos fez ganhar.
Por isso sempre acreditei no meu pai e no time dele. O nosso.
Ele me ensinou tantas coisas que eu não sei. Uma que ficou é que nem todas as palavras precisam ser ditas. Devem ser apenas pensadas. Quem fala o que pensa não pensa no que fala. Quem sente o que fala nem precisa dizer.
Mas hoje eu preciso agradecer pelos meus 46 anos. Pelos 49 de amor da minha mãe. Pelos 75 dele.
Mais que tudo, pelo carinho das pessoas que o conhecem, logo gostam dele. Especialmente pelas pessoas que não o conhecem, e algumas choraram como se fosse um velho amigo.
Uma coisa aprendi com você, Babbo. Antes de ser um grande jornalista é preciso ser uma grande pessoa.
Com ele aprendi que não tenho de trabalhar para ser um grande profissional. Preciso tentar ser uma grande pessoa. Como você fez as duas coisas.
Desculpem, mas não vou chorar. Choro por tudo. Por isso choro sempre pela família, Palmeiras, amores, dores, cores, canções.
Mas não vou chorar por algo mais que tudo que existe no meu mundo que são meus pais. Meus pais, que também deveriam se chamar minhas mães, sempre foram presentes. Um regalo divino.
Meu pai nunca me faltou mesmo ausente de tanto que trabalhou. Ele nunca me falta por que teve a mulher maravilhosa que é dona Lucila. Segundo seu Joelmir, a segunda maior coisa da vida dele. Que a primeira sempre foi o amor que ele sentiu por ela desde 1960. Quando se conheceram na rádio 9 de julho. Onde fizeram família. Meu irmão e eu. Filhos do rádio.
Filhos de um jornalista econômico pioneiro e respeitado, de um âncora de TV reconhecido e inovador, de um mestre de comunicação brilhante e trabalhador.
Meu pai.
Eu sempre soube que jamais seria no ofício algo nem perto do que ele foi. Por que raros foram tão bons na área dele. Raríssimos foram tão bons pais como ele. Rarésimos foram tão bons maridos. Rarissíssimos foram tão boas pessoas. E não existe outra palavra inventada para falar quão raro e caro palmeirense ele foi.
Mas sempre é bom lembrar que palmeirenses não se comparam. Não são mais. Não são menos. São Palmeiras. Basta.
Como ele um dia disse no anúncio da nova arena, em 2007, como esteve escrito no vestiário do Palmeiras no Palestra, de 2008 até a reforma: “explicar a emoção de ser palmeirense a um palmeirense é totalmente desnecessário. E a quem não é palmeirense… é simplesmente impossível!.
A ausência dele não tem nome. Mas a presença dele ilumina de um modo que eu jamais vou saber descrever. Como jamais saberei escrever o que ele é. Como todo pai de toda pessoa. Mais ainda quando é um pai que sabia em 40 segundos descrever o que era o Brasil. E quase sempre conseguia. Não vou ficar mais 40 frases tentando descrever o que pude sentir por 46 anos.
Explicar quem é Joelmir Beting é desnecessário. Explicar o que é meu pai não estar mais neste mundo é impossível.
Nonno, obrigado por amar a Nonna. Nonna, obrigado por amar o Nonno.
Os filhos desse amor jamais serão órfãos.
Como oficialmente eu soube agora, 1h15 desta quinta-feira, 29 de novembro. 32 anos e uma semana depois da morte de meu Nonno, pai da minha guerreira Lucila.
Joelmir José Beting foi encontrar o Pai da Bola Waldemar Fiume nesta quinta-feira, 0h55."
Mauro Beting
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Amigos para sempre (Luís Giffoni)
"O rapaz entrou no prédio em passadas de bêbado, tropeçou no pequeno degrau da portaria, quase caiu. Falava muito, a voz se arrastava, o corpo exalava cerveja e cachaça, os cabelos pareciam sujos de talco misturado com ketchup. A julgar pelos sinais, a farra tinha sido boa. Contou-me que voltava da comemoração do último dia de aula. Ele nem acreditava que não havia mais reposição nem provas, apenas a formatura o aguardava, após cinco anos de faculdade de engenharia. Já alugara o capelo e o modelito de formando com a capa de Batman, traje agora exigido na cerimônia. As fotografias oficiais estavam prontas. Os convites, distribuídos. Em sua camiseta, coberta de desenhos e bocas de batom, três palavras escritas com esferográfica me chamaram a atenção: Amigos para Sempre. Abaixo, uma dúzia de assinaturas.

O rapaz ainda não se deu conta, mas o término das aulas é a semente de uma grande saudade. Todo novembro e dezembro, época em que as despedidas e formaturas se concentram, novas turmas iniciam a rotina de trabalho, e cada pessoa toma seu rumo, com frequência longe de Belo Horizonte. Com o passar do tempo, talvez devido ao aumento das responsabilidades que a vida impõe, talvez pelo avanço da idade, o espírito irreverente do jovem se vai, e entram em campo a sisudez, a reserva, o ar de decano. Claro, há quem não se deixe dominar tão cedo pelo peso do compromisso, mas a maioria acaba cedendo. Então surge a nostalgia. O profissional se lembra dos anos de faculdade, recorda o espírito livre, leve e solto do último dia de aula, e a saudade chega. O tempo não poupa nem a mais elevada autoestima.
As reuniões de turma são um remédio eficaz, porém de curta duração, para essa saudade. Nem bem os colegas se reencontram, trocam abraços, tateiam assuntos, reconhecem-se, avançam. Dali a minutos, o antigo clima de camaradagem desponta, os anos se apagam, a conversa rola, a memória se instala, triunfante: baixam as lembranças, baixam os casos e causos, baixa a juventude que escapou em ritmo de Usain Bolt. Os amigos se ancoram no passado, em episódios que jamais mudarão, em histórias que, ano após ano, serão repetidas à exaustão, sobretudo as mais engraçadas. Elas serão o referencial permanente, o graal revisitado. Livres da formalidade, alguns dos presentes ao encontro ensaiam um retorno no tempo: viram adolescentes. Os mais circunspectos, mais idosos do que merecem, os repreendem. Os outros riem. Aqui e ali, despontam os desgarrados: o economista que virou cineasta, o dentista que se tornou fazendeiro, o médico que explora hotel.
Imaginemos o formando de hoje, aquele da camiseta com as três palavras, numa reunião com os colegas de engenharia daqui a quarenta anos. Um deles, suponhamos que seu nome seja Eduardo, tomou a generosa iniciativa de reuni-los, procurando-os mundo afora. Muitos não se viam desde o porre da última comemoração. Transformaram-se em senhores calvos, os cabelos brancos dominam os poucos que ainda sobram, uma barriguinha decerto apareceu, os gestos tornaram-se mais comedidos. Alguns acreditam tanto no casamento que trazem a sexta esposa, ou esposo. No entanto, apesar das décadas decorridas, as diferenças logo desaparecem, o passado se instala, todos voltam a ser os jovens adultos que um dia se despediram escrevendo mensagens nas camisetas que já não existem, porém as três palavras permanecem para selar o convívio: Amigos para Sempre. Se o corpo não vence o tempo, há sentimentos que permanecem incólumes. A amizade é um deles."
Fonte: http://vejabh.abril.com.br/edicoes/amigos-sempre-722545.shtml
O rapaz ainda não se deu conta, mas o término das aulas é a semente de uma grande saudade. Todo novembro e dezembro, época em que as despedidas e formaturas se concentram, novas turmas iniciam a rotina de trabalho, e cada pessoa toma seu rumo, com frequência longe de Belo Horizonte. Com o passar do tempo, talvez devido ao aumento das responsabilidades que a vida impõe, talvez pelo avanço da idade, o espírito irreverente do jovem se vai, e entram em campo a sisudez, a reserva, o ar de decano. Claro, há quem não se deixe dominar tão cedo pelo peso do compromisso, mas a maioria acaba cedendo. Então surge a nostalgia. O profissional se lembra dos anos de faculdade, recorda o espírito livre, leve e solto do último dia de aula, e a saudade chega. O tempo não poupa nem a mais elevada autoestima.
As reuniões de turma são um remédio eficaz, porém de curta duração, para essa saudade. Nem bem os colegas se reencontram, trocam abraços, tateiam assuntos, reconhecem-se, avançam. Dali a minutos, o antigo clima de camaradagem desponta, os anos se apagam, a conversa rola, a memória se instala, triunfante: baixam as lembranças, baixam os casos e causos, baixa a juventude que escapou em ritmo de Usain Bolt. Os amigos se ancoram no passado, em episódios que jamais mudarão, em histórias que, ano após ano, serão repetidas à exaustão, sobretudo as mais engraçadas. Elas serão o referencial permanente, o graal revisitado. Livres da formalidade, alguns dos presentes ao encontro ensaiam um retorno no tempo: viram adolescentes. Os mais circunspectos, mais idosos do que merecem, os repreendem. Os outros riem. Aqui e ali, despontam os desgarrados: o economista que virou cineasta, o dentista que se tornou fazendeiro, o médico que explora hotel.
Imaginemos o formando de hoje, aquele da camiseta com as três palavras, numa reunião com os colegas de engenharia daqui a quarenta anos. Um deles, suponhamos que seu nome seja Eduardo, tomou a generosa iniciativa de reuni-los, procurando-os mundo afora. Muitos não se viam desde o porre da última comemoração. Transformaram-se em senhores calvos, os cabelos brancos dominam os poucos que ainda sobram, uma barriguinha decerto apareceu, os gestos tornaram-se mais comedidos. Alguns acreditam tanto no casamento que trazem a sexta esposa, ou esposo. No entanto, apesar das décadas decorridas, as diferenças logo desaparecem, o passado se instala, todos voltam a ser os jovens adultos que um dia se despediram escrevendo mensagens nas camisetas que já não existem, porém as três palavras permanecem para selar o convívio: Amigos para Sempre. Se o corpo não vence o tempo, há sentimentos que permanecem incólumes. A amizade é um deles."
Fonte: http://vejabh.abril.com.br/edicoes/amigos-sempre-722545.shtml
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Navio Negreiro - Castro Alves
Navio Negreiro
(Castro Alves)
"(...) Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!... (...)"
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Isto - Fernando Pessoa - Contribuição da Pâmela Machado..
ISTO
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
(Fernando Pessoa)
domingo, 28 de outubro de 2012
Hifen com prefixos

"(...) O H é majestoso. Não se mistura. O prefixo, seguido da letra muda, vem isolado:
anti-higiênico,
super-herói,
mini-história,
sub-humanidade.
Os iguais se rejeitam. Quando duas letras iguais se encontram, provocam curto-circuito. O tracinho evita tragédias:
micro-ondas,
super-região,
contra-ataque,
auto-orientação.
Os diferentes se atraem. Duas letras diferentes funcionam como imã. Colam-se num piscar de olhos:
autoescola,
supermercado,
contrarregra,
macrossistema,
minissaia,
automotivação."
SQUARISI. Dad, Jornal Estado de Minas. Out. 2012.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Júlio Verne - A Volta ao Mundo em 80 Dias
"(...) Ao meio-dia o guia deu o sinal de partida. O terreno tomou bem depressa um aspecto selvático. Às grandes florestas sucederam-se os matagais de tamarindos e de palmeiras anãs, em seguida planícies extensas e áridas, eriçadas de arbustos enfezados e cobertas em certos sítios de grandes pedaços de sienitos. Toda esta parte do alto Bundelkund, pouco frequentada dos viajantes, é habitada por uma população fanática, endurecida nas práticas mais terríveis da religião indiana. O domínio dos Ingleses não pôde estabelecer-se regularmente num território submetido à influência dos rajás, os quais seria difícil alcançar nas suas posições inacessíveis dos Vindhyas.
Por várias vezes os viajantes avistaram alguns bandos de índios selvagens e ferozes, que faziam um gesto de cólera ao verem passar o veloz quadrúpede. Entretanto o parse evitava-os o mais possível, considerando-os como criaturas cujo encontro seria funesto. No decurso deste dia foram vistos poucos animais, apenas alguns macacos, que fugiam... (...)"
terça-feira, 25 de setembro de 2012
A Sombra do Vento
"Uma tarde de chuva na encosta leste do cemitério de Montijuic, olhando o mar em meio a um bosque de mausoléus impossíveis, um bosque de cruzes e lápides talhadas com rostos de caveiras e crianças sem lábios nem olhar, que fedia a morte, as silhuetas de uma vintena de adultos dos quais eu só conseguia me lembrar das roupas pretas, empapadas de chuva, e a mão do meu pai segurando a minha com força excessiva, como se assim ele quisesse silenciar suas lágrimas, enquanto as palavras ocas de um sacerdote caíam naquela fossa de mármore para dentro da qual três coveiros sem rosto empurravam um caixão cinzento onde o aguaceiro deslizava como cera fundida e onde eu acreditava ouvir a voz da minha mãe, chamando-me, suplicando para eu libertá-la daquela prisão de pedra e de escuridão, enquanto eu só conseguia tremer e murmurar sem voz para meu pai não apertar tanto a minha mão, pois estava me machucando, e aquele cheiro de terra fresca, terra de cinza e de chuva, devorava tudo, cheiro de morte e de vazio." (...)
ZÁFON, Carlos Ruiz. A Sombra do Vento. Tradução de Marcia Ribas. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2007, p. 251.
domingo, 19 de agosto de 2012
Amor é síntese - Mário Quintana
AMOR É SÍNTESEPor favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu...
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.
Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor.
"Eis que o amor pode ser síntese, mas nunca sintético" (Eduardo Leandro)
domingo, 29 de julho de 2012
Pelas Mãos de Fídias - Jogos Olímpicos
O sonho de uma sombra, eis o homem” (Píndaro)
Estou chegando a Olímpia – ano de 776, a.C.. Venho de Atenas, de onde saí, há cerca de duas semanas, trazido por um sonho. Só Deus sabe quanto penei ao longo da travessia. Trago os pés cobertos de bolhas d`água. Caminhei horrores pelo deserto de Arcadia, árduo chão de pedras repisadas. Hoje de manhã, quase ao final da viagem, ao tentar colher uma tâmaras, escapei de uma boa: fui atacado por um enxame de abelhas. Mal tive tempo de pular dentro d`água. Mergulhei no rio Alfeu pra salvar minha pele, minha vida.
Olímpia está tomada de visitantes. É gente que vem dos mais distantes lugares da Grécia. São artistas, charlatães, camponeses, mágicos, pescadores, filósofos. Todos, como eu, vieram para os Jogos Olímpicos que começam hoje. Melhor dizendo, recomeçam hoje. Os Jogos estavam suspensos há centenas de anos, segundo me conta um pastor de ovelhas chamado Fídias que, diga-se de passagem, não tem qualquer parentesco com o escultor Fídias, o qual, aliás, ainda nem sequer nasceu. Coisa engraçada: o tempo por aqui, conta-se pelo avesso. É o caso do próprio e renomado escultor Fídias que nasceu no ano de 490 a.C. e morreu no ano de 432. – Os gregos de outrora morriam antes de nascer…
Os Jogos ressurgem neste belo dia de sol e caem justamente na primeira lua cheia seguinte ao solstício do verão. Respeita-se, assim, o ritual dos Jogos, criados pelo rei Penélope para homenagear os camponeses, durante a colheita das uvas.
O dia está nascendo em Olímpia. Já começa a chegar muita gente ao estádio. À primeira vista, a pequena multidão lembra um bloco fantasiado de grego no carnaval carioca. Vestem todos saiotes e túnica, com uma discreta tiara de pano cingindo a cabeça. Não vejo uma só mulher na torcida. Fídias me explica: é proibido! Mulher não pode assistir aos Jogos. A única que tentou driblar a lei foi a mãe de um atleta. Ela era treinadora do próprio filho e entrou na pista disfarçada de homem. Descobriram e foi o diabo! A pobrezinha só não morreu atirada num precipício porque era filha de um herói de guerra. Mas, desde então, para evitar novas astúcias femininas, o atleta é obrigado a competir nuzinho em pelo. Na pista, seja atleta, treinador ou mesmo juiz, a ordem é todo mundo nu.
A idéia de realizar os Jogos Olímpicos da Antiguidade de quatro em quatro anos é rebento de muitos pais. Um deles teria sido Hércules. Corre em Atenas que, um dia, Augias, rei de Élida, confiou ao gigante Hércules a tarefa de limpar os mal-cheirosos currais da cidade. E prometeu recompensá-lo com um saco de ouro. Hércules, então, meteu mãos à obra: escancarou as porteiras dos estábulos, soltou os três mil bois que lá viviam porcamente e, com a força gigantesca que os deuses nunca lhe negaram, desviou o leito do rio Alfeu, fazendo que a correnteza arrastasse em poucas horas toda a sujeira dos estábulos. Foi a primeira obra realmente hercúlea de uam criatura humana.
Na hora de honrar a palavra, o rei Augias roeu a corda. Disse que não ficara nada satisfeito com o resultado do trabalho. Hércules, com toda razão, virou uma fera e, sem mais aquela, despachou o monarca, cravando-lhe no peito uma lança mortal. Por sinal, a mesma lança com a qual matara, dias antes, o leão de Nemeas. No dia seguinte, Hércules celebraria a façanha, disputando com os quatro irmãos, uma corrida de 600 pés de distância.
Hoje, não haverá competição. O programa limita-se à abertura dos Jogos, com o juramento dos juízes e dos atletas. Amanhã, a disputa começa com o Pentatlo. Meu amigo Fídias, um verdadeiro apóstolo dessa religião chamada olimpismo, sabe-se de cór o regulamento dos Jogos. São 14 artigos, o primeiro dos quais reza que escravos e estrangeiros não podem competir; o quinto proíbe mulher de assistir aos Jogos; o sétimo diz que nenhum atleta pode matar seu adversário; o décimo terceiro avisa que qualquer participante tem direito de recorrer ao Senado, em Atenas, contra a decisão dos juízes.
Estou chegando a Olímpia – ano de 776, a.C.. Venho de Atenas, de onde saí, há cerca de duas semanas, trazido por um sonho. Só Deus sabe quanto penei ao longo da travessia. Trago os pés cobertos de bolhas d`água. Caminhei horrores pelo deserto de Arcadia, árduo chão de pedras repisadas. Hoje de manhã, quase ao final da viagem, ao tentar colher uma tâmaras, escapei de uma boa: fui atacado por um enxame de abelhas. Mal tive tempo de pular dentro d`água. Mergulhei no rio Alfeu pra salvar minha pele, minha vida.Os Jogos ressurgem neste belo dia de sol e caem justamente na primeira lua cheia seguinte ao solstício do verão. Respeita-se, assim, o ritual dos Jogos, criados pelo rei Penélope para homenagear os camponeses, durante a colheita das uvas.
O dia está nascendo em Olímpia. Já começa a chegar muita gente ao estádio. À primeira vista, a pequena multidão lembra um bloco fantasiado de grego no carnaval carioca. Vestem todos saiotes e túnica, com uma discreta tiara de pano cingindo a cabeça. Não vejo uma só mulher na torcida. Fídias me explica: é proibido! Mulher não pode assistir aos Jogos. A única que tentou driblar a lei foi a mãe de um atleta. Ela era treinadora do próprio filho e entrou na pista disfarçada de homem. Descobriram e foi o diabo! A pobrezinha só não morreu atirada num precipício porque era filha de um herói de guerra. Mas, desde então, para evitar novas astúcias femininas, o atleta é obrigado a competir nuzinho em pelo. Na pista, seja atleta, treinador ou mesmo juiz, a ordem é todo mundo nu.
A idéia de realizar os Jogos Olímpicos da Antiguidade de quatro em quatro anos é rebento de muitos pais. Um deles teria sido Hércules. Corre em Atenas que, um dia, Augias, rei de Élida, confiou ao gigante Hércules a tarefa de limpar os mal-cheirosos currais da cidade. E prometeu recompensá-lo com um saco de ouro. Hércules, então, meteu mãos à obra: escancarou as porteiras dos estábulos, soltou os três mil bois que lá viviam porcamente e, com a força gigantesca que os deuses nunca lhe negaram, desviou o leito do rio Alfeu, fazendo que a correnteza arrastasse em poucas horas toda a sujeira dos estábulos. Foi a primeira obra realmente hercúlea de uam criatura humana.
Na hora de honrar a palavra, o rei Augias roeu a corda. Disse que não ficara nada satisfeito com o resultado do trabalho. Hércules, com toda razão, virou uma fera e, sem mais aquela, despachou o monarca, cravando-lhe no peito uma lança mortal. Por sinal, a mesma lança com a qual matara, dias antes, o leão de Nemeas. No dia seguinte, Hércules celebraria a façanha, disputando com os quatro irmãos, uma corrida de 600 pés de distância.
Hoje, não haverá competição. O programa limita-se à abertura dos Jogos, com o juramento dos juízes e dos atletas. Amanhã, a disputa começa com o Pentatlo. Meu amigo Fídias, um verdadeiro apóstolo dessa religião chamada olimpismo, sabe-se de cór o regulamento dos Jogos. São 14 artigos, o primeiro dos quais reza que escravos e estrangeiros não podem competir; o quinto proíbe mulher de assistir aos Jogos; o sétimo diz que nenhum atleta pode matar seu adversário; o décimo terceiro avisa que qualquer participante tem direito de recorrer ao Senado, em Atenas, contra a decisão dos juízes.
São oito da noite. Estou exausto, Fídias também. A cerimônia de inauguração dos Jogos Olímpicos foi bem o que imaginávamos. Um espetáculo solene e emocionante que terminou com um belo entardecer: de um lado, o sol deitando no céu uma colossal vermelhidão; do outro lado, a lua chegando, olimpicamente.
(Armando Nogueira)
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